A verdade está lá fora

2009 Maio 11
by Haqqaton

Atualmente tenho tentado prestar mais atenção em coisas que outrora não chamariam minha atenção; talvez seja a idade chegando.  Talvez não seja a idade, talvez seja mudanças ocorridas no meu modo de ver o mundo – e de querer agir sobre ele.

Meu cérebro costumava filtrar, muito fino por sinal, as informações que chegavam à mim. Não raro acontecia de eu precisar de um serviço, assistir a um comercial do serviço na TV, e nem perceber que a solução do problema estava ali. Um dos assuntos que eram prontamente barrados pelo meu inconsciente é a política. Houve um tempo em que prestava atenção, depois de algumas notícias perdi a esperança de usá-la para melhorar o mundo e agora me vejo a querer prestar um pouco mais de atenção de novo. Afinal, não deixa também de ser minha obrigação como cidadão.

Um fato que me intrigou há algum tempo foi a investigação Satiagraha; especificamente como a mesa virou e ela, a investigação e seus executores – dentre eles o próprio Protógenes – foram parar no “lado mau” da história. Achei impressionante que em poucos dias o nome “Daniel Dantas” foi quase esquecido e as atenções se viraram para/contra a Polícia Federal. Bom, não vou protegê-la (PF) porque não tenho muitas informações acerca de quem está com a razão nessa história, mas que essa “virada de mesa” foi estranha, isso foi. E me lembro do Protógenes berrando na TV afirmando que nunca havia imaginado que o Dantas fosse “tão poderoso” (ou algo assim). Algo a se pensar.

- Algo não está cheirando bem Mulder.
- Me desculpe Scully. Pensei que não percerberia.

Isso vem se desenrolando há algum tempo e confesso que agora nem tenho TV – antes já não assistia quase nada – e não tenho o hábito de ler notícias na net. Fiquei um bom tempo sem acompanhar a política. Contudo, dias atrás um jornal chegou às minhas mãos e nele havia uma reprodução de um texto – uma carta – muito interessante escrito pelo jornalista Leandro Fortes. Segue o link abaixo:

http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=3640

O texto do link acima foi escrito em 19/03/09. Abaixo segue o texto de um post do blog (brasiliaeuvi.zip.net) do mesmo jornalista. Não coloquei o permalink porque não o encontrei (e procurei bem!), mas a postagem tá lá, feita no dia 25/03/09.

Deixa ver se eu entendi. O diretor da TV Câmara, Manuel Roberto Seabra, em entrevista ao site “Comunique-se”, afirma que “assessores” do ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, reclamaram do conteúdo do programa “Comitê de Imprensa”, do qual participei como convidado, para falar das investigações contra o delegado Protógenes Queiroz, da Polícia Federal, com base em uma reportagem da revista Veja. Ele afirma ter recebido “muitas reclamações” (dos assessores de Gilmar Mendes?) sobre a “matéria”. Era um programa de debates. Eu não entendo muito de televisão, mas sei diferenciar um programa de debate de uma matéria. Mas vamos adiante, porque a coisa ainda vai desandar mais.

A “matéria”, segundo Seabra, “teria sido ofensiva” ao ministro Gilmar Mendes e, mais grave ainda, “saía do tema”. Primeiro, eu gostaria de saber com que autoridade o diretor da TV Câmara, funcionário de uma emissora pública, paga pelo contribuinte, ordena a retirada do ar de um programa de debate por que o conteúdo das falas, de inteira responsabilidade de quem as pronuncia, “teria” sido ofensivo a quem quer que seja. Que diabos é isso? Um roteiro do mundo bizarro ou um conto de Lewis Caroll? Ainda que eu tivesse xingado o presidente do STF, o que não ocorreu, não caberia ao senhor Manuel Seabra determinar um ato de censura, assim, ao bel prazer. E a tal “tentativa de responder a isso”? Prestem atenção: queriam inserir entrevistas de Gilmar Mendes e de um “representante da CPI dos Grampos”, a título de direito de resposta… num programa de debate! Como não conseguiram tal proeza, optaram em colocar novamente o programa no ar. Entenderam?
Eu explico, me acompanhem: o diretor da TV Câmara recebeu uma reclamação de “assessores” do ministro Gilmar Mendes (na verdade, a reclamação foi ao presidente da Câmara dos Deputados, deputado Michel Temer). Em seguida, envergonhado por não ter o outro lado, ele decidiu tirar o programa do ar e retirar o link do site da internet. Na verdade, extirpar, porque nem nos arquivos da página ele podia ser encontrado. Exatamente como faziam os stalinistas, nas fotos oficiais da extinta URSS, quando os camaradas dissidentes caíam em desgraça. Nesse ínterim, entre os dias 16 e 24 de março, Manuel Seabra tentou, em vão, entrevistar Gilmar Mendes e um representante da CPI dos Grampos. Eis um detalhe curioso: os repórteres da TV Câmara não conseguiram entrevistar o presidente do STF, que dá meia dúzia de entrevistas por semana, e, mais incrível ainda, NENHUM deputado da CPI dos Grampos! Diante de tal quadro de desolação, Manuel Seabra decidiu, então, recolocar o link no site. Vencido, pois, pelo cansaço.

Inacreditável, vale ressaltar, foi a evolução das versões. No dia 19 de março, instado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, o assessor de imprensa do deputado Michel Temer, Márcio Freitas, negou qualquer participação da presidência da Câmara na censura. Argumentou que o programa entrou numa fila, foi seis vezes ao ar e depois foi retirado para dar lugar a outros programas. Nonsense total. Essa regra não existe, nunca existiu. Além disso, o assessor nada falou sobre a retirada do link. Depois, uma funcionária da TV Câmara afirmou que o link foi retirado do ar por conta de um defeito técnico. Aliás, um defeito muito peculiar, porque só atingiu um link do site inteiro – o do debate do qual participei. Não colou. No dia 24 de março, foi a vez do Secretário de Comunicação da Câmara, Sérgio Chacon, emitir uma nota dizendo que o programa foi exibido “cinco vezes” (jornalista é ruim de conta mesmo) e que não houve pressão “de quem quer que seja” para interromper a exibição. Como assim? E os “assessores” (são quantos, afinal?) do ministro Gilmar Mendes??

A entrevista do senhor Manuel Seabra, como qualquer estudante de jornalismo pode perceber, é um ato de confissão: Gilmar Mendes mandou tirar o programa “Comitê de Imprensa” do ar e extirpar o link do site. A alegação de que houve ofensas pessoais é risível, senão patética, porque, mesmo durante o período da censura, diversos blogs veicularam o programa para milhões de internautas, alheios ao devaneio da direção da TV Câmara. No vídeo, atualmente com mais de 10 mil exibições registradas em apenas um dos links do “YouTube”, não há uma única ofensa a ninguém. Sobre Gilmar Mendes, me referi, dentro do contexto da Operação Satiagraha (logo, dentro do tema “Protógenes Queiroz”), sobre o profundo desequilíbrio da cobertura da mídia, quase toda voltada para fixar no delegado a pecha de fanático por grampos ilegais (sem uma única prova) e lustrar a imagem do presidente do STF como paladino do Estado Democrático de Direito. Citei, ainda, o fato de Mendes estar me processando, e à CartaCapital, por conta de uma matéria – absolutamente jornalística – sobre o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), do qual o ministro é sócio. Trata-se de instituição construída com dinheiro do Banco do Brasil, em terreno praticamente doado pelo governo do Distrito Federal e com contratos de mais de 2 milhões de reais firmados, sem licitação, com órgãos públicos e tribunais. Onde está a ofensa nisso?

O que ofende a todos nós, jornalistas, é essa tentativa primária de encerrar um assunto gravíssimo, baseado em prova documental (as imagens do site com e sem o link censurado), a partir de uma defesa confusa, contraditória e tardia, elaborada sem o menor compromisso com o jornalismo, a ética e a boa educação. Leio, estarrecido, que por causa desse episódio, a TV Câmara pretende “reformular” o programa “Comitê de Imprensa”, até então considerado um fórum plural e democrático de discussão entre jornalistas de diversos veículos, pensamentos e opiniões. Segundo Manuel Seabra, o programa terá pautas “mais fechadas”, seja lá o que isso signifique. E os apresentadores (quais? Não era só um?) estarão avisados “para evitar novos ataques pessoais”. Só pode ser piada. O que farão os apresentadores? Darão choques elétricos nos entrevistados? Vão acionar aquele “piiii!” usado para camuflar os palavrões proferidos pelos participantes do Big Brother Brasil?

Mesmo o mais foca dos estagiários sabe o que vai acontecer, de fato: censura prévia. Aos entrevistados, aos temas, ao programa. Algo me diz que o “Comitê de Imprensa” subiu no telhado.

Reitero, pois, meu pedido à Associação Brasileira de Imprensa (ABI), à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e ao Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal para que abracem essa causa, não em meu nome, mas de todos os jornalistas e cidadãos brasileiros, cerceados, estes, no seu direito de ter acesso a informação pública em uma emissora do Congresso Nacional, custeada pelo contribuinte. Não é pouca coisa. O Sindicato dos Jornalistas do DF abriu uma investigação pelo Comitê de Ética para apurar os fatos. Apuração, aliás, facílima. Matéria pronta, eu diria.

E viva a liberdade de expressão.

Leandro Fortes

Jornalista

Brasília, 25 de março de 2009

É tempo de ficar de olhos bem abertos. Como disse um sábio:

“A única diferença entre um político e um ladrão é que um você escolhe, o outro escolhe você”.

Será que teremos que incluir magistrados nessa lista? De fato acho que já deveriam estar lá. Mas gostei da resposta de um político quando questionado, por um jornalista, do porquê deles roubarem tanto.

- É porque somos os representantes do povo.

Pena que isso aconteceu numa tirinha. :)

Off: Isso vai parecer brincadeira, mas meu Firefox está consumindo 206,9 mb de RAM!! Tá uma carroça num C2D com 2GB. A Mozilla vai ter que rebolar para se adequar aos futuros web applications rodando uma porção de Ajax e Javascripts. Se hoje está assim…

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